sábado, 5 de fevereiro de 2011

Setor de serviços deve elevar ainda mais o desenvolvimento do Sudeste

Com uma economia forte e diversificada, o Sudeste é responsável pelo maior PIB (Produto Interno Bruto) per capita do Brasil. Além disso, a Região deve se tornar o principal polo de atração de investimentos nos próximos anos. Isso porque com a exploração do pré-sal e com as obras necessárias para a Copa do Mundo de 2014, cujas três principais sedes do mundial estarão situadas no Sudeste, e para os Jogos Olímpicos de 2016, que serão realizados na cidade do Rio de Janeiro/RJ, a perspectiva é de que a Região apresente níveis de crescimento acima da média nacional. Em virtude destes investimentos, estima-se que entre 2011 e 2016, o seu PIB cresça 0,35% ao ano ante o crescimento de 0,2% do total nacional. "O Sudeste, que já é forte economicamente, tende a crescer ainda mais nesse período, o que trará benefícios econômicos não somente para os estados contemplados com estes eventos, mas para toda a nação brasileira", analisa Eduardo Amaral Haddad, presidente da Associação Brasileira de Estudos Regionais.

Um possível reflexo deste avanço econômico pode ser observado no número de novas contratações empregatícias neste ano. Somente no primeiro semestre de 2010 foram efetuadas a contratação de 984 mil empregados com carteira assinada, número este que representou mais da metade de todas as contratações feitas no País neste mesmo período (1,65 milhão). Na opinião do engenheiro de Segurança Luis Carlos Roma Paumgartten este avanço na formalização do contrato profissional não significa necessariamente que houve abertura de novos postos de trabalho. "Acredito que uma significativa parcela deste número se refira aquele trabalhador que atuava na empresa, mas que não tinha sua carteira assinada. Ou seja, era contratado para prestar um determinado serviço, mas não tinha sua situação legalizada. Agora, em consequência de uma fiscalização mais ativa, está havendo uma maior formalização do emprego em atividades em que esta prática não ocorria como, por exemplo, o setor de serviços", considera Paumgartten.

Contemplando diversas atividades de prestação de serviços comerciais, pessoais e comunitários à população, além da comercialização de produtos e tendo como sua principal característica o trato com o cliente, o setor de serviços (também chamado de setor terciário) é um dos maiores geradores de postos de trabalho do País. De acordo com dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), a Região Sudeste possui 5,6 milhões de pessoas atuando no segmento. Deste total, 3,39 milhões estão envolvidos em atividades de prestação de serviços no Estado de São Paulo.


Degradação

Cada vez mais utilizada, a terceirização de serviços se tornou uma prática comum no mercado de trabalho hoje em dia. "Esta é uma realidade, pois não há mais como dizer que uma empresa não terá terceirizados em sua estrutura organizacional", enfatiza Paumgartten. A motivação pela adoção desta prática, segundo ele, deve-se à redução de riscos e, em tese, pela descaracterização do vínculo empregatício com o funcionário. "Caso ocorra uma crise financeira, ela simplesmente suspende o contrato, evitando maiores problemas no processo de desligamento do trabalhador com a empresa. No entanto, esta despreocupação geralmente também está atrelada às questões de segurança do contratado. Por isso, há um maior índice de acidentes de trabalho com terceirizados", reforça.

Na opinião da socióloga e pesquisadora Selma Venco, a passagem do vínculo empregatício pelo processo de terceirização provocou uma degradação nas condições de trabalho oferecidas aos funcionários. "Quando falo isso, não me refiro apenas às questões sociais, mas sim ao aumento significativo do ritmo de trabalho, do aumento da produtividade, da extensão da jornada de trabalho, fatores estes que se somados, provocam exaustão, desgaste mental, estresse, depressão, LER/DORT, facilitando a ocorrência de acidentes no ambiente de trabalho", cita Selma.

Ela destaca ainda que o processo de terceirização também implica numa maior rotatividade de trabalhadores, sendo o serviço de teleatendimento uma das atividades que mais reforça esta teoria. "Já encontrei empresas que tinham uma taxa de rotatividade de 85% por ano. Ou seja, ela utiliza o trabalhador pelo período em que ele está superprodutivo, o que numa empresa de teleatendimento dura apenas seis meses. Depois desse período, os contratados não são mais interessantes para este empregador, pois a curva de produtividade começa a cair sensivelmente", analisa a socióloga. Com o esgotamento desta energia inicial dos novos funcionários, são estabelecidas estratégias para forçar um pedido de demissão.

Outro problema presente neste serviço é o assédio moral, motivado principalmente pela constante e ferrenha cobrança de metas. Conforme a pesquisadora da Fundacentro Thaís Helena de Carvalho Barreira, a pressão imposta aos teleatendentes para que sejam cumpridas as metas estipuladas pela diretoria é violenta, tendo um efeito maléfico à saúde mental do prestador de serviço. "Esta cobrança chega, muitas vezes, a ser desmesurada. Até porque se trata de uma atividade com interação relacional que, portanto, não depende somente dele. Em virtude desta interatividade, que envolve agressividade, assédio sexual e sofrimento alheio, eles acabam sendo expostos a um desgaste emocional elevadíssimo", garante Thaís.

A perversidade com o qual estes profissionais são tratados em seu ambiente laboral pode ser consequência direta do modelo de organização do trabalho usado no serviço de teleatendimento. É o que sugere o médico do Trabalho René Mendes. Para ele, percebe-se nestes modelos a má concepção dos processos de trabalho, da gestão do trabalho e da chefia e supervisão, sendo todos claramente patogênicos. "Não se trata de uma questão médica e muito menos de ordem biológica ou de pré-disposição física, mas sim de problemas fortemente organizacionais, que requerem abordagens integradas e integrais, não alcançáveis pela SST", afirma Mendes.


Invisíveis

Considerado um dos setores profissionais com maior representatividade de mão de obra jovem e feminina, a prestação de serviços também inclui outras atividades de alto desgaste como, por exemplo, a área de Educação e de Saúde que, juntas, representam contingentes extremamente numerosos. Além de uma baixa remuneração, ambas as atividades enfrentam duplas ou triplas jornadas de trabalho, desgaste elevado, sobrecarga e baixa autonomia, condições associadas à geração de adoecimento do trabalho, principalmente de origem psíquica.

O serviço de vigilância patrimonial também tem sido alvo das atenções de especialistas em Saúde e Segurança do Trabalho. Isso porque o segmento de segurança privada vem gerando um alto índice de afastamentos do trabalho por estresse pós-traumático. "Por estarem diariamente expostos a este assustador cenário de violência, que cresce vertiginosamente, os vigilantes vivem sob grande tensão e medo, seja porque pode acontecer a qualquer momento, porque já vivenciaram um episódio, ou porque já viram colegas sendo atingidos e feridos. É um desafio diário", pondera a pesquisadora da Fundacentro Thaís Helena.

Por apresentar, em grande parte, riscos invisíveis (pressão, tensão, medo, ansiedade) ao trabalhador, o setor de serviços acaba impondo uma série de novos desafios à fiscalização. "Mesmo tendo as normas regulamentadoras entrando em aspectos como pressão de tempo e a intensificação do trabalho, a fiscalização no setor é difícil, pois há uma grande diversificação de riscos. Além disso, dependemos da constatação de fatos, o que nem sempre é possível obter durante as ações", conclui o auditor fiscal da SRTE/MG Aírton Marinho.

Nenhum comentário: